Taxa das “blusinhas”: o que esse debate revela sobre o compromisso do Brasil com sua indústria

taxa das blusinhas

Por: Ricardo Martins, presidente da Abimetal-Sicetel

Nos últimos meses, a chamada “taxa das blusinhas” dominou o debate público, mobilizou consumidores, movimentou o varejo digital e gerou forte repercussão política e econômica. Mas, para além da discussão sobre tributação de compras internacionais de pequeno valor, existe um ponto muito mais relevante, e preocupante, que esse episódio escancarou: a dificuldade histórica do Brasil em construir um ambiente verdadeiramente favorável para sua própria indústria. E é sobre isso que quero conversar com vocês hoje.

O debate não deveria se limitar ao impacto da taxação sobre o consumo. O que precisa estar no centro da discussão é o desequilíbrio estrutural enfrentado por quem produz no Brasil. A indústria nacional convive há décadas com uma combinação de fatores que comprometem sua competitividade: carga tributária elevada, burocracia excessiva, insegurança jurídica, infraestrutura limitada, alto custo logístico, juros elevados e um ambiente regulatório complexo. Tudo isso forma o já conhecido “Custo Brasil”, que penaliza diariamente a capacidade produtiva do país.

Ao mesmo tempo, produtos importados chegam ao mercado brasileiro muitas vezes provenientes de economias com forte incentivo estatal, energia subsidiada, crédito competitivo, logística eficiente e políticas industriais estruturadas. O resultado é uma concorrência profundamente desigual.

Não se trata de ser contra importações ou contra a abertura de mercado. Trata-se de discutir equilíbrio competitivo. Nenhuma economia sólida no mundo abandona sua base industrial ou ignora a importância estratégica de quem produz internamente. 

O que preocupa é que, no Brasil, muitas vezes parece haver uma desconexão entre o discurso sobre desenvolvimento econômico e as condições reais oferecidas para a indústria crescer. Enquanto países desenvolvidos fortalecem suas cadeias produtivas com programas robustos de incentivo industrial, inovação e proteção estratégica, seguimos convivendo com um ambiente que frequentemente transfere para as empresas nacionais o peso das ineficiências estruturais do país. 

E isso tem consequências diretas. Quando a indústria perde competitividade, o impacto vai muito além das fábricas. A redução da capacidade produtiva afeta investimentos, geração de empregos, arrecadação, inovação e crescimento econômico. Toda a cadeia sente.

No setor de processamento de aço, por exemplo, já convivemos há anos com o avanço das importações em diversos segmentos, especialmente vindas de mercados que operam com escala muito superior, subsídios relevantes e custos estruturais significativamente menores.

Competimos não apenas com produtos. Competimos com políticas industriais inteiras. E aqui existe um ponto importante: competitividade não é um conceito abstrato. Ela se traduz na capacidade das empresas de continuar investindo, modernizando operações, gerando empregos e sustentando crescimento de longo prazo.

Sem previsibilidade e sem condições minimamente equilibradas, o investimento desacelera. E quando o investimento desacelera, toda a economia perde capacidade de desenvolvimento. O mais preocupante é que o debate da “taxa das blusinhas” acabou revelando algo maior: o Brasil ainda discute consumo com mais profundidade do que discute produção.

Mas nenhum país cresce de forma sustentável sem fortalecer sua base produtiva. As maiores economias globais já entenderam isso. Estados Unidos, China e países europeus vêm ampliando investimentos em reindustrialização, tecnologia, infraestrutura e fortalecimento de cadeias estratégicas. Existe uma compreensão clara de que indústria forte significa segurança econômica, inovação e capacidade de crescimento sustentável.

No Brasil, precisamos avançar nessa mesma direção. Isso passa, inevitavelmente, por uma agenda estruturante: 

  • redução do Custo Brasil; 
  • simplificação tributária; 
  • segurança jurídica; 
  • melhoria logística; 
  • incentivo à inovação; 
  • previsibilidade regulatória; 
  • fortalecimento da competitividade industrial. 

Não se trata de proteção artificial de mercado. Trata-se de construir condições equilibradas para que a indústria brasileira consiga competir, investir e crescer. Defender quem produz no Brasil é defender empregos, arrecadação, inovação e desenvolvimento econômico.

A indústria brasileira não pede privilégios. Pede coerência, porque, no final das contas, o que está em jogo não é apenas uma discussão tributária sobre compras internacionais. O que está em jogo é a capacidade do país de continuar produzindo, inovando e crescendo de forma sustentável. E esse deveria ser um compromisso permanente do governo brasileiro.

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