Setor de processamento de aço sofre queda de 10,8% em novembro e alerta para quarto ano de contração

A indústria de trefilados de metal enfrenta pressão combinada da invasão de produtos chineses e do persistente “Custo Brasil”; associação defende medidas urgentes de defesa comercial.

A queda de 10,8% na produção de trefilados de metal em novembro, na comparação com o mesmo mês do ano anterior, vai além de um dado estatístico. Ela funciona como um termômetro claro de um setor que opera no limite entre eficiência produtiva e um ambiente cada vez mais adverso para investir, competir e planejar.

Os trefilados, base para produtos como cabos, grampos, pregos e telas metálicas, são um elo silencioso, porém essencial, da cadeia industrial. Quando esse segmento perde fôlego, o impacto se espalha por diversos setores da economia.

Na prática, o que os números indicam não é uma oscilação pontual, mas a persistência de um ciclo de retração.

No acumulado até novembro de 2025, o setor registra queda de 1,6%, marcando o quarto ano consecutivo de desempenho negativo. Um sinal de alerta.

Para o economista da Abimetal-Sicetel, André Cattaruzzi, a análise precisa ir além da curva de produção. “O dado isolado não conta toda a história. A indústria processadora de aço enfrenta uma combinação complexa de fatores: concorrência externa agressiva, especialmente de produtos chineses, margens comprimidas e um ambiente interno que adiciona custos e incertezas à operação”, avalia.

Essa pressão fica ainda mais evidente quando se observa o desempenho do grupo Produtos de Metal – exceto máquinas e equipamentos, que inclui itens estratégicos para a indústria nacional. Apesar de variações positivas pontuais na comparação mensal, o recuo anual de 6,8% e a retração de 1,9% no acumulado do ano reforçam um cenário de fragilidade estrutural.

O desafio atual não está apenas na demanda

Segundo Cattaruzzi, juros elevados, insegurança jurídica, complexidade tributária e instabilidade regulatória reduzem a previsibilidade. “Isso faz com que decisões de investimento sejam adiadas ou redimensionadas, mesmo em empresas eficientes e tecnicamente preparadas”, explica.

O contexto internacional adiciona uma camada extra de pressão. Medidas protecionistas adotadas por grandes economias, como o recente aumento de tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, afetam diretamente a competitividade da indústria nacional, já pressionada pelo chamado Custo Brasil.

Nesse ambiente, a indústria processadora de aço deixa de discutir apenas volume e passa a discutir resiliência. Manter operações saudáveis, preservar empregos e sustentar investimentos exige mais do que eficiência interna: requer um ambiente institucional previsível e condições mínimas de concorrência justa.

Para a Abimetal-Sicetel, o momento reforça a urgência de políticas públicas que tratem a indústria como vetor estratégico de desenvolvimento. “Sem isonomia concorrencial, previsibilidade regulatória e redução de custos estruturais, o risco não é apenas de queda na produção, mas de perda de capacidade industrial no médio prazo”, alerta Cattaruzzi.

Mais do que um número negativo, o resultado de novembro funciona como um convite à reflexão: até que ponto a indústria consegue sustentar sua competitividade em um ambiente que penaliza quem produz?

A resposta a essa pergunta será determinante para o futuro do setor e para o papel da indústria processadora de aço na economia brasileira nos próximos anos.

Compartilhe nosso conteúdo