O comportamento das importações de produtos processados de aço voltou ao centro do debate industrial brasileiro. Os dados consolidados até janeiro de 2026 revelam um cenário que exige atenção redobrada de fabricantes, entidades representativas e formuladores de políticas públicas.
Embora o início de 2026 indique uma leve desaceleração em relação ao ano anterior, o movimento estrutural de crescimento das importações segue firme, especialmente quando analisado em uma perspectiva de médio e longo prazo.
Entre 2019 e 2025, as importações totais de produtos processados de aço praticamente dobraram, saltando de cerca de 423 mil toneladas para mais de 821 mil toneladas. Esse crescimento de quase 95% não pode ser interpretado como um fenômeno pontual.
Trata-se de uma mudança consistente na dinâmica de abastecimento do mercado brasileiro, com impactos diretos sobre competitividade, preços e sustentabilidade da indústria nacional.
Crescimento do volume importado e queda dos preços médios
Um dos aspectos mais relevantes observados nos dados é a combinação entre aumento expressivo de volume e redução do preço médio das importações.
Em 2025, o volume total importado cresceu 16% em relação a 2024, enquanto o valor FOB avançou apenas 6,5%. Como consequência, o preço médio por quilo caiu de US$ 2,20 para US$ 2,02.
Essa tendência reforça a pressão competitiva sobre os produtores nacionais. Produtos importados chegam ao país com preços cada vez mais baixos, muitas vezes inviabilizando a concorrência em segmentos de maior sensibilidade a custos.
Não se trata apenas de maior presença estrangeira, mas de uma mudança estrutural no patamar de preços praticados no mercado.
A participação crescente da China
A China segue como principal origem das importações de produtos processados de aço, ampliando de forma consistente sua participação.
No ano passado, o país asiático respondeu por quase 490 mil toneladas importadas, um crescimento de 19,4% em relação a 2024. A participação chinesa no total importado passou de 58% para 59,7% em volume, e de 36,6% para 37,9% em valor.
Ainda mais relevante é o diferencial de preços. O preço médio dos produtos chineses permaneceu significativamente inferior à média geral, reforçando o efeito de deslocamento da produção nacional.
Em diversos segmentos, o aço processado chinês chega ao Brasil com valores até 40% menores do que os praticados internamente.
Um início de 2026 com sinais mistos
O desempenho de janeiro de 2026 traz sinais ambíguos. Em relação a janeiro de 2025, houve queda de 7,2% no volume importado e redução de 8,5% no valor FOB.
No entanto, quando comparado a dezembro de 2025, o volume permaneceu praticamente estável, com leve alta de 0,2%, enquanto o valor cresceu 14,3%.
Esse comportamento sugere uma acomodação temporária após um ano de forte expansão, mas ainda não permite afirmar que há uma reversão da tendência. A média móvel de 12 meses indica uma desaceleração lenta, sem sinais claros de retração estrutural.
Os próximos meses podem testemunhar novos aumentos de importações, tendo em vista a apreciação do real e a redução dos preços de fretes internacionais.
Análise por segmentos: crescimento generalizado
A leitura setorial reforça a amplitude do movimento de crescimento das importações. Com exceção do arame farpado, todos os principais segmentos analisados apresentaram aumento superior a 35% entre 2019 e 2025.
As importações de arames de aço, por exemplo, mais que dobraram no período, ultrapassando 300 mil toneladas em 2025. O segmento de cabos de aço registrou crescimento ainda mais expressivo, com alta superior a 130% em seis anos.
Perfis de aço e tiras e fitas também apresentaram avanços consistentes, consolidando-se como áreas de maior exposição à concorrência externa.
Esse movimento não se limita a produtos de menor valor agregado. Mesmo itens com maior complexidade técnica, como perfis estruturais e cabos especiais, vêm registrando aumento significativo das importações, o que amplia o impacto sobre diferentes elos da cadeia produtiva nacional.
Tiras e fitas: avanço acelerado e preços em queda
O segmento de tiras e fitas de aço é um dos exemplos mais emblemáticos. Em 2025, o volume importado cresceu mais de 41% em relação ao ano anterior, enquanto o preço médio caiu mais de 34%. A participação da China quase dobrou em volume, saltando de 22% para mais de 38%.
Esse tipo de movimento tende a gerar efeitos em cascata sobre indústrias consumidoras, como autopeças e componentes industriais, ao mesmo tempo em que pressiona severamente os produtores nacionais desse insumo.
Arames, cabos e telas: pressão contínua
Arames de aço continuam sendo o maior segmento em volume importado, com mais de 300 mil toneladas em 2025. Cabos de aço e telas metálicas também mantiveram trajetória de crescimento no médio prazo, apesar de oscilações mensais e quedas pontuais em 2026.
Esses segmentos são particularmente sensíveis, pois atendem setores estratégicos como construção civil, agronegócio, energia e infraestrutura. A perda de competitividade da produção nacional nessas áreas pode gerar efeitos negativos sobre emprego, investimento e inovação.
O que os dados sinalizam para a indústria brasileira
O conjunto das informações aponta para um desafio estrutural. O crescimento das importações não parece estar ligado apenas a ciclos econômicos ou variações cambiais pontuais. Ele reflete diferenças profundas de custo, escala e políticas industriais entre o Brasil e seus principais parceiros comerciais.
Para a indústria processadora de aço, o cenário exige uma combinação de estratégias. Ganhos de produtividade, investimentos em tecnologia e diferenciação de produtos são fundamentais, mas podem não ser suficientes sem um ambiente competitivo equilibrado.
Ao mesmo tempo, o debate sobre instrumentos de defesa comercial, alíquotas, cotas e políticas de desenvolvimento industrial tende a ganhar ainda mais relevância ao longo de 2026.
Considerações finais
Os dados até janeiro de 2026 mostram que, apesar de uma leve desaceleração recente, as importações de produtos processados de aço permanecem em patamares historicamente elevados.
Mais do que um retrato estatístico, esse movimento representa um alerta estratégico. Compreender a evolução das importações por segmento, origem e preço é essencial para embasar decisões empresariais e políticas públicas.
O monitoramento contínuo desses movimentos é fundamental para decisões mais seguras. A Abimetal atua ativamente na análise e na disseminação de informações estratégicas para a indústria processadora de aço.


