Decidir em um mercado que não espera

Em um cenário de margens pressionadas, avanço das importações e mudanças cada vez mais rápidas no mercado, conhecer os números do setor deixou de ser apenas uma questão de informação. É uma condição para entender o presente e tomar decisões mais consistentes.

Por Ricardo Martins, presidente da Abimetal-Sicetel

Quanto do mercado brasileiro estamos perdendo para os produtos importados? O consumo está crescendo ou apenas mudando de origem? Há demanda suficiente para sustentar os atuais níveis de produção? O que os números de hoje revelam quando comparados aos de cinco ou dez anos atrás?

Para quem está à frente de uma empresa da indústria processadora de aço, essas perguntas estão longe de ser teóricas. Estamos vivendo um período que exige atenção.

De um lado, temos uma indústria brasileira pressionada por juros elevados, custos logísticos, carga tributária, burocracia e uma série de fatores que já conhecemos bem e que comprometem nossa competitividade. De outro, acompanhamos o avanço de produtos importados, muitas vezes provenientes de mercados que operam em condições muito diferentes das nossas.

Nesse ambiente, olhar apenas para o faturamento do mês ou para o comportamento mais recente da demanda é insuficiente. Precisamos entender o movimento.

O número sozinho conta apenas parte da história

Tomemos as importações como exemplo. Saber que determinado produto aumentou sua participação no mercado brasileiro é importante. Mas, para quem está dentro da indústria, essa informação imediatamente provoca outras perguntas.

De onde está vindo esse produto? A que preço chega ao Brasil? Em quais segmentos esse avanço é mais significativo? Como esse movimento se compara à produção nacional? Estamos diante de uma oscilação ou de uma mudança que vem se consolidando ao longo dos anos? É quando começamos a cruzar essas informações que o dado ganha outra dimensão.

Produção, consumo aparente, capacidade instalada, emprego, importações, exportações e desempenho dos principais setores consumidores precisam ser analisados em conjunto. Afinal, o mercado não se explica por um único indicador. E, principalmente, não se explica pela fotografia de um único mês.

Precisamos entender como chegamos até aqui

É justamente nesse ponto que as séries históricas ganham importância. Quando observamos dez anos de informações, conseguimos enxergar movimentos que dificilmente aparecem em uma análise de curto prazo.

É possível identificar mudanças na composição do mercado, períodos de maior ou menor utilização da capacidade instalada, alterações nos fluxos de comércio exterior e transformações na própria dinâmica dos setores consumidores de aço.

Isso não significa que o passado tenha todas as respostas para o futuro. Mas significa que podemos tomar decisões conhecendo melhor o caminho que nos trouxe até aqui.

O Anuário Abimetal-Sicetel vem sendo construído há mais de uma década com esse propósito: reunir, organizar e preservar informações sobre a evolução da indústria processadora de aço brasileira. Ou seja, mais do que registrar números, queremos construir uma base de conhecimento sobre o nosso setor.

Conhecer nossos números também fortalece nossa voz

Existe ainda uma dimensão fundamental desse trabalho. Para defender a competitividade da indústria brasileira, precisamos demonstrar o que está acontecendo com ela.

Se as importações avançam, precisamos saber quanto avançam, de onde vêm e quais segmentos estão sendo mais afetados. Se existe capacidade ociosa, precisamos dimensioná-la. Se a produção nacional perde espaço, precisamos identificar onde isso ocorre e em que velocidade. Se determinados custos comprometem nossa competitividade, precisamos demonstrar seus impactos. É isso que transforma uma percepção do mercado em um argumento técnico.

Na Abimetal-Sicetel, essa informação tem papel fundamental no trabalho de representatividade que realizamos junto ao poder público e às demais instituições com as quais nos relacionamos.

Não podemos discutir política industrial, comércio exterior ou competitividade apenas com impressões. Precisamos de fatos.

Informação precisa servir para alguma coisa

É com essa visão que apresentamos mais uma edição do Anuário Abimetal-Sicetel. Espero que empresários, executivos e gestores encontrem nestas páginas não apenas uma compilação de indicadores, mas elementos para compreender melhor o momento que estamos atravessando.

Um gráfico pode confirmar algo que uma empresa já vinha percebendo em sua operação. Uma série histórica pode mostrar que determinado movimento é mais profundo do que parecia. Um dado de importação pode ajudar a dimensionar uma pressão que já vinha sendo sentida comercialmente. É aí que o número deixa de ser estatística e passa a ter valor para quem está na indústria.

Vivemos um mercado mais complexo, mais pressionado e sujeito a movimentos que acontecem cada vez mais rápido. Não controlamos todas essas variáveis. Mas precisamos conhecê-las. Isso porque, para representar nossa indústria e tomar decisões em um mercado que não espera, conhecer profundamente a realidade do nosso setor não é mais uma opção. É o ponto de partida.

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