Por: Ricardo Martins | Presidente da Abimetal-Sicetel
O Brasil enfrenta um desafio que deveria estar no centro de qualquer discussão sobre o futuro do país: como gerar mais riqueza, ampliar a renda dos trabalhadores e garantir melhores condições de vida para a população? A resposta passa, necessariamente, pelo fortalecimento da atividade produtiva, pelo aumento da produtividade e pela valorização do trabalho.
É nesse contexto que precisamos analisar, com responsabilidade, as propostas de redução da jornada de trabalho e de alteração da escala 6×1, frequentemente associadas à adoção de uma jornada de cinco dias de trabalho por dois de descanso.
À primeira vista, trabalhar menos e manter a mesma remuneração parece uma conquista desejável. Afinal, todos almejamos mais tempo para a família, o lazer e a vida pessoal. Entretanto, precisamos fazer uma pergunta fundamental: como sustentar salários maiores, preservar empregos e ampliar o poder de compra da população se não criarmos as condições econômicas necessárias para produzir mais riqueza?
Não se trata de desconsiderar a importância do descanso ou da qualidade de vida dos trabalhadores. Trata-se de reconhecer que avanços sociais duradouros precisam estar acompanhados de crescimento econômico, ganhos de produtividade e capacidade de investimento.
Para a indústria brasileira, especialmente para o setor processador de aço, essa discussão é ainda mais relevante. Nossas empresas convivem diariamente com uma elevada carga tributária, custos de financiamento, dificuldades logísticas, concorrência internacional muitas vezes desleal e uma série de obstáculos que comprometem sua competitividade.
Nesse cenário, uma redução compulsória da jornada, sem a correspondente evolução da produtividade, pode representar aumento do custo por unidade produzida, necessidade de reorganização dos turnos e maiores dificuldades para empresas que já operam com margens reduzidas.
E quem pagará essa conta?
Dependendo das condições de cada setor, os efeitos poderão aparecer na forma de preços mais elevados, menor capacidade de investimento, perda de competitividade ou redução das oportunidades de emprego. Em última análise, o próprio trabalhador poderá ser prejudicado, justamente aquele que a medida pretende beneficiar.
O poder aquisitivo da população não aumenta simplesmente porque trabalhamos menos. Ele cresce de maneira sustentável quando a economia produz mais, as empresas investem, os empregos se multiplicam e os salários conseguem avançar acima da inflação.
É preciso compreender que a riqueza de uma nação não surge por decreto. Ela é construída diariamente nas fábricas, no campo, no comércio e nos serviços, por empresários que investem, trabalhadores que produzem e profissionais que inovam.
Países que alcançaram elevados padrões de renda e qualidade de vida não chegaram a essa condição apenas por reduzir jornadas. Construíram, ao longo do tempo, economias produtivas, competitivas e capazes de gerar maior valor por hora trabalhada.
Esse deveria ser o caminho brasileiro
Antes de impor novas obrigações às empresas, precisamos discutir como reduzir o custo Brasil, estimular investimentos, modernizar processos produtivos, qualificar profissionais e fortalecer a indústria nacional.
Precisamos criar condições para que nossas empresas produzam mais, vendam mais, contratem mais e remunerem melhor seus trabalhadores. Isso significa ampliar as oportunidades de trabalho e geração de renda, e não simplesmente aumentar a quantidade de horas trabalhadas por cada profissional.
A defesa do trabalho não pode ser confundida com a defesa de condições inadequadas ou jornadas excessivas. O que defendemos é que o desenvolvimento econômico seja o alicerce de qualquer avanço nas relações de trabalho.
A Abimetal-Sicetel acredita que o Brasil precisa voltar a valorizar quem produz. Uma indústria forte movimenta cadeias inteiras de fornecedores, gera empregos, estimula a inovação e contribui diretamente para o desenvolvimento nacional.
Por isso, mudanças estruturais nas relações de trabalho exigem diálogo, estudos de impacto e atenção às particularidades de cada atividade econômica. Medidas generalizadas, ainda que motivadas por boas intenções, podem produzir consequências diferentes daquelas inicialmente esperadas.
O trabalhador brasileiro merece ganhar mais, ter acesso a melhores oportunidades e conquistar maior qualidade de vida. Mas essas conquistas precisam ser sustentadas por uma economia que cresça de forma consistente.
O Brasil não ficará mais rico simplesmente trabalhando menos. Ficará mais rico quando conseguir produzir mais e melhor, gerar mais oportunidades e transformar crescimento econômico em renda para sua população.
E com a conclusão do processo eleitoral é importante que propostas eleitoreiras como essa da escala de trabalho sejam encaradas seriamente e que se procure amenizar os danos que tais medidas possam causar a este cenário extremamente desafiador para os próximos anos.




