Redução de jornada e fim da escala 6×1: o debate que precisa considerar quem produz

Por: Ricardo Martins, presidente da Abimetal-Sicetel

Para quem está à frente da indústria processadora de aço, a tomada de decisão é um exercício constante de equilíbrio, que não pode ser pautado apenas com base em expectativa ou narrativa. Exige análise técnica e impacto financeiro claro. E isso também se refere ao debate sobre a redução de jornada e o fim da escala 6×1, tema que já avançou no Congresso Nacional e foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, conforme noticiado pela Agência Senado.

Não se trata apenas de organização de tempo de trabalho. Estamos falando de estrutura de custo, produtividade, previsibilidade operacional e competitividade internacional. E para uma área com linhas produtivas contínuas, como a nossa, turnos estruturados e margens pressionadas por importações, o reflexo é direto. E é sobre este tema que quero conversar hoje com vocês. Vamos lá!

O risco de elevar custo sem elevar produtividade

O Brasil enfrenta um desafio histórico: enquanto a produtividade da agropecuária cresceu 6% ao ano (1981-2023), a indústria registrou desempenho negativo, com queda média de 0,3% ao ano. Estudos do FGV IBREe do Ipea indicam que reduzir a jornada para 36 horas sem ganhos de produtividade pode encolher o PIB em 6,2%.

Além disso, a transição elevaria o custo da hora trabalhada em até 22% para quem cumpre o limite de 44 horas. Impor essa redução em um país com um dos maiores ônus trabalhistas do mundo pode agravar os custos do setor em mais de R$ 170 bilhões, um cenário complexo para todas as empresas e, que poderia ser ainda mais difícil para as pequenas e micro.

Competitividade não é um detalhe

Nos últimos anos, temos enfrentado crescimento relevante das importações em diversos segmentos do aço processado, como vocês sabem. Competimos com países que operam com escala, subsídios, logística eficiente e ambientes regulatórios mais estáveis. Com isso, qualquer aumento de custo interno desacompanhado de redução do “Custo Brasil” amplia o desequilíbrio concorrencial. Se o custo sobe e o mercado não absorve, o investimento posterga e a modernização desacelera. O resultado final, paradoxalmente, pode ser o desemprego para milhões de brasileiros, devido à incapacidade das empresas de suportar o ônus da produção reduzida com salários mantidos.

Não é uma questão ideológica. É matemática industrial. Se o custo sobe e o mercado não absorve, a margem cai. Se a margem cai, o investimento posterga. Se o investimento posterga, a modernização desacelera. E, no médio prazo, o emprego é o primeiro a sentir.

Indústria não opera em modelo linear

A escala 6×1, em muitos casos, está associada a operações que exigem continuidade produtiva, manutenção programada, segurança industrial e atendimento a cadeias que não podem parar. Uma mudança estrutural precisa considerar: a diversidade setorial; a diferença entre indústria contínua e serviços; a capacidade de adaptação das empresas; e os efeitos sobre contratos vigentes e planejamento de longo prazo. 

Modelos únicos raramente funcionam em realidades produtivas complexas. Portanto, o caminho deve ser a negociação coletiva entre sindicatos e empresas, respeitando as peculiaridades de cada ramo, como estabelece a legislação atual. 

Então, o que precisa estar no centro da discussão?

Se o país deseja evoluir nas relações de trabalho, o debate deve vir acompanhado de compromissos estruturais, ou seja, ter produtividade como prioridade nacional (investimento em qualificação técnica, automação, digitalização e melhoria de processos), redução do Custo Brasil (infraestrutura, simplificação regulatória, menor insegurança jurídica e ambiente previsível para investimento); e transição responsável e, principalmente, negociada com o setor. Afinal, setores como o nosso precisam de tempo e segurança para adaptar modelos operacionais.

Liderança exige responsabilidade

Como gestores de uma empresa do setor não podemos analisar esse tema apenas sob o prisma do debate público. Precisamos analisar sob o olhar da sustentabilidade econômica da operação, da manutenção dos empregos e da capacidade de continuar investindo no Brasil.

A indústria forte é condição para o crescimento. Não há avanço social consistente sem base produtiva sólida. O Brasil precisa discutir jornada, sim. Mas precisa discutir junto: produtividade, competividade, eficiência sistêmica e previsibilidade regulatória. Qualquer agenda que avance apenas em um desses pilares e ignore os demais cria desequilíbrio. E desequilíbrio, em indústria, custa caro.

Do ponto de vista da Abimetal-Sicetel, defendemos que não há avanço social sem base produtiva sólida. A indústria forte é condição para seguirmos avançando. O debate deve ser amplo e escutar todos os ramos da atividade com responsabilidade. Defender quem produz no Brasil é defender empregos, arrecadação, inovação e o futuro do país.

E tudo isso, trata-se de garantir que mudanças fortaleçam, e não fragilizem, a base industrial brasileira. Vamos em frente.

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